Um dos assassinatos mais chocantes do século XIX terminou em absolvição judicial e permaneceu sem resposta forense definitiva. A nova produção ficcionaliza lacunas históricas e insere conexões improváveis para prender a atenção do público do streaming.
A trama de Ryan Murphy e Ian Brennan retrata o assassinato violento de Andrew e Abby Borden a machadadas, ocorrido em Massachusetts. O espectador precisa separar a documentação oficial da liberdade narrativa aplicada aos episódios.
A culpa de Lizzie Borden no tribunal e na história
Lizzie Borden foi formalmente absolvida pela Justiça americana em 1893 por absoluta ausência de provas materiais conclusivas contra ela. A série adota a teoria de autoria direta para movimentar o roteiro dramático, embora historiadores e peritos nunca tenham confirmado essa versão nos autos oficiais.
As tensões financeiras na casa de Fall River realmente existiam e eram de conhecimento público entre os vizinhos. Andrew Borden acumulou grande fortuna mercantil, mantendo hábitos extremamente austeros com as filhas Lizzie e Emma.
O detalhe que a maioria ignora aqui é o impacto da compra de um imóvel para a família da madrasta dias antes do duplo homicídio. Esse atrito patrimonial alimentou fofocas locais, mas nenhuma testemunha viu a jovem empunhar qualquer machado contra os parentes.
As encenações das mortes e as liberdades criativas
As reconstituições visuais mostradas na televisão colocam Lizzie atacando as vítimas diretamente no quarto e na sala com auxílio da funcionária da casa. Documentos periciais atestam que Abby morreu primeiro no andar superior, enquanto Andrew sofreu os golpes horas depois no térreo, sem indício de perseguição prévia.
O enredo televisivo adicionou uma suposta cooperação entre Lizzie e Bridget Sullivan na execução de Andrew. Os relatórios policiais do período nunca apontaram a colaboradora doméstica como coautora ou cúmplice dos assassinatos.
Assim como ocorre em produções de suspense no catálogo de filmes de suspense contemporâneos, a dramatização prioriza o impacto visual imediato sobre o rigor pericial.
Romance secreto e a invenção sobre Aileen Wuornos
Registros históricos descartam qualquer envolvimento amoroso de Lizzie Borden com Bridget Sullivan ou influência real sobre a assassina Aileen Wuornos décadas depois. A roteirização transformou boatos de época em romance explícito e criou um salto temporal inteiramente inventado.
Sarah Paulson interpreta Wuornos em um encontro fictício que liga crimes ocorridos em 1989 com o caso de 1892. Wuornos matou homens na Flórida após agressões e nunca citou Borden como inspiração para seus atos em juízo.
A presença da atriz Nance O’Neil também sofreu alteração temporal profunda no roteiro. Lizzie conheceu Nance apenas em 1904, mais de uma década após o julgamento que parou os Estados Unidos.
Comparativo entre o caso real e a produção da Netflix
| Acontecimento na História Real | Versão Apresentada na Série |
|---|---|
| Lizzie foi absolvida por falta de evidências físicas. | Mostra Lizzie planejando e executando os golpes fatais. |
| Bridget Sullivan não teve ligação amorosa com Lizzie. | Retrata as duas personagens em relacionamento afetivo secreto. |
| Bertha Manchester morreu por ação de um imigrante português. | Exibe Lizzie e Bridget cometendo o assassinato juntas como teste. |
| Aileen Wuornos cometeu crimes sem relação com o caso antigo. | Sugere que Wuornos se inspirou na história de Borden. |
O assassinato de Bertha Manchester fora da residência
Bertha Manchester morreu vítima de golpes cortantes em uma fazenda distante antes do julgamento principal, mas sem relação com a família Borden. As investigações policiais da época prenderam um homem estrangeiro pelo crime violento.
Na prática, o erro mais comum nessa etapa é aceitar a ideia de treino prévio das assassinas como fato verídico. A produção da plataforma televisiva fundiu casos criminais da mesma época para construir uma atmosfera contínua de cumplicidade homicida.
A expansão do catálogo de suspense histórico lembra o investimento contínuo da Netflix em grandes narrativas originais e adaptações de época, apostando no fascínio do público por mistérios não resolvidos.
Com informações de Portal de Notícias



